Durante alguns segundos, a superfície plúmbea e ligeiramente crespa absorve os pensamentos de Nula e, em cada uma das ondinhas rugosas, idênticas, em movimento contínuo, que se erguem formando uma orla que, mais que uma curva, um ângulo obtuso representaria com maior precisão, tem a sensação de assistir à manifestação visível do devir que, por exibir-se às vezes no acontecer por meio da repetição ou da imobilidade enganosa, dá aos sentidos toscos a ilusão de estabilidade. Para Nula, que muitas vezes por dia se surpreende observando exemplos que algum dia serão úteis para suas Notas, a ilha à sua frente, formação aluviônica, é uma boa prova da alteração contínua das coisas: o mesmo movimento constante que a formou a vai erodindo, fazendo-a mudar de tamanho, de forma, de lugar, e o ir e vir da matéria e dos mundos que ela faz e desfaz não passa, para ele, do fluir sem direção nem objetivo, nem explicação conhecida do tempo invisível que, silencioso, os atravessa.
— Repare como são todas iguais — diz.
[Juan José Saer. O Grande.]